sábado, 15 de outubro de 2011

II Seminário Internacional "Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos"

O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo vai realizar, de 11 a 14 de novembro o II Seminário Internacional "A Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos", que acontecerá  no campus Paraíso da UNIP em São Paulo.
Medicalizar é transformar em doença os sofrimentos que são decorrentes de fenômenos sociais e culturais: é  caso do fracasso escolar, por exemplo.




 Os objetivos do Seminário são:


 
  • Divulgar e discutir controvérsias científicas acerca do diagnóstico e tratamento de supostos transtornos de aprendizagem, tendo como pano de fundo a crítica à medicalização da sociedade.
  • Ampliar o debate sobre interesses econômicos e políticos subjacentes ao incremento da medicalização da educação e da sociedade.
  • Promover reflexões e discussões sobre políticas públicas de saúde e de educação de cunho medicalizante, visando a formulação de políticas embasadas em concepções de ser humano e de sociedade que contemplem a diversidade e a singularidade.
  • Subsidiar a atuação do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, nacional e internacionalmente.

 Vale a pena participar! Confira maiores informações pelo link: www.crpsp.org.br/medicalizacao
 

 

 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quais os benefícios da Psicoterapia?

"Um Encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei
no lugar dos meus.
E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus;
Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus."

J.L.Moreno, criador do Psicodrama.



Por Luciana Stoppa dos Santos

Uma das possibilidades de trabalho do psicólogo é a psicoterapia, que tem origem nas palavras gregas psykhē -psique, alma, mente, e therapeuein - cuidar, curar. Podemos afirmar então que a psicoterapia é um processo de “tratamento”, de cuidado da alma. Nele, terapeuta e paciente refletem sobre padrões de comportamento e funcionamento mental dos indivíduos com o objetivo de promover a mudança terapêutica. A evolução do paciente (ou mudança terapêutica) acontece quando ele dá novo significado às vivências, reparando as conseqüências das experiências negativas por meio da exposição a situações emocionais mais favoráveis àquelas vividas no passado e que produziram registros traumáticos.

Mas o que leva uma pessoa a buscar psicoterapia?

Situações vividas ao longo da vida mobilizam questionamentos relacionados a valores, crenças e comportamentos que compõem nosso Conceito de Identidade. Trata-se de uma construção consciente e individual, que permite o desenvolvimento de uma imagem aceitável de si mesmo, dos outros e da realidade. Contudo, na maioria das vezes, este Conceito não corresponde à verdade sobre nós mesmos, pois há uma série de sensações, sentimentos e percepções que permanecem inconscientes, mas que ainda assim exercem influência sobre as atitudes e comportamentos. É do choque das “verdades” construídas com as “verdades” escancaradas pela vida que surge a angústia, sentimento de ser ou estar “incompleto”, que por sua vez origina o “processo de busca”, elemento fundamental para a psicoterapia. Este processo surge do nosso universo de relações: família, escola, trabalho, religião ou outros grupos sociais aos quais pertencemos.

Com relação à angústia, esta pode se manifestar em maior ou menor intensidade, e o paciente, por sua vez, pode ter maior ou menor condição de dar continência a ela,  o que caracterizará o tipo de comprometimento na saúde mental. Sentir angústia, ao contrário do que pode parecer, é positivo e todos podemos senti-la em algum momento de nossas vidas, o que não significa que estamos doentes. Angustiar-se exprime a capacidade de ressignificar a existência e isso pode ser feito através da psicoterapia.

A psicoterapia utiliza recursos e conhecimentos oriundos da psicologia e pode englobar diferentes linhas teóricas como a psicanálise, a psicoterapia cognitivo- comportamental, o psicodrama entre outras. O psicodrama, referencial teórico que utilizo em meu trabalho, mobiliza o cliente para vivenciar a realidade a partir do reconhecimento das diferenças e dos conflitos e facilita a busca de alternativas para a resolução do que é revelado, expandindo os recursos disponíveis.

O processo psicoterapêutico é uma construção partilhada entre terapeuta e paciente. Ao profissional cabe o preparo técnico, teórico e humano que respaldará seu trabalho e ao paciente o envolvimento genuíno com o processo de busca. Além de tratamento, psicoterapia é autoconhecimento. Sejam bem vindos todos aqueles que estiverem dispostos a abrir caminhos em suas próprias almas!

Os Direitos das Famílias...

1.O direito de sentir emoções intensas
2. O direito de procurar outra opinião
3. O direito de continuar a tentar

4. O direito de desistir
5. O direito à privacidade

6. O direito de ser uma família

7. O direito de não ser entusiasta

8. O direito de se sentir cansada da criança

9. O direito de ter tempo livre

10. O direito a ser quem melhor conhece a criança

11. O direito de estabelecer os limites

12. O direito à dignidade
 
Raver & Kilgo, 1991



Traduzido pelo Projecto Integrado de Intervenção Precoce – Distrito de Coimbra


anip.sede@iol.pt
piip.coimbra@mail.telepac.pt
http://www.esec.pt/anip

terça-feira, 12 de julho de 2011

A droga da Obediência


Olá leitor...companheiro psicólogo, pai, educador ou profissional da saúde: vale a pena ler esta matéria publicada na Revista Caros Amigos em 20 de fevereiro de 2011. A médica pediatra da UNICAMP, Maria Aparecida Afonso Moysés, parceira do Conselho Regional de Psicologia contra a Medicalização da Sociedade faz um alerta sobre a banalização do uso do metilfenidato como "tratamento para os problemas de atenção". Considero de extrema importância que nós psicólogos clínicos e escolares estejamos alertas para não referendar práticas patologizantes... Confira!


Por Lívia Perozim 
O Brasil é o segundo maior consumidor mundial dos psicotrópicos chamados metilfenidatos, prescritos para o tratamento de crianças diagnosticadas como portadoras do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Atrás apenas dos Estados Unidos, consumimos, em 2009, 2 milhões de caixas, ante as 70 mil consumidas em 2000. A droga, usada para tratar do que é considerado um distúrbio neurobiológico, é consumida, entre outros, por crianças e adolescentes desatentos, agitados e com dificuldades escolares. Apelidado de a “droga da obediência”, por acalmar e focar a atenção, o medicamento leva os sugestivos nomes de Concerta e Ritalina (produzidos pelos laboratórios Janssen Cilag e Novartis, respectivamente). Seu uso, no entanto, provoca acaloradas discussões. A pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, da Unicamp, é uma das vozes médicas a questionar a existência de “uma doença neurológica que só altere comportamento e aprendizagem”. Nessa entrevista, ela explica as reações adversas da droga e afirma que os critérios para diagnosticar o TDAH são normas sociais.
Carta Fundamental: O consumo de metilfenidatos no Brasil foi de 70 mil, em 2000, para 2 milhões de caixas, em 2009. A que a senhora atribui esse aumento?
Maria Aparecida Affonso Moysés: 
Outro dado é que o Brasil só perde para os Estados Unidos no consumo dessa droga, o que é assustador, porque este não é um medicamento seguro. O metilfenidato tem várias reações adversas. E veja só: não são efeitos colaterais, são reações adversas e indicam a retirada imediata da droga.
CF: Que tipo de reação?
MAAM: 
No sistema nervoso causa insônia, cefaleia, alucinações, psicose, suicídio e o principal efeito chamado de Zumbi Like. Significa agir como um zumbi, ou seja, a pessoa fica quimicamente contida em si mesma. Todos esses são sinais de toxicidade e indicam a retirada imediata da droga. No sistema cardiovascular o remédio causa arritmia, taquicardia, hipertensão, parada cardíaca. O risco de morte súbita inexplicada em adolescente é estimado em 10 a 14 vezes maior entre aqueles que tomam o remédio, segundo uma pesquisa de 2009 da Food and Drugs Administration (FDA) e de National Institute of Mental Health (NIMH). Não é desprezível. Além disso, interfere no sistema endócrino, na secreção dos hormônios de crescimento e dos sexuais. É uma substância com o mesmo mecanismo de ação e as mesmas reações adversas da cocaína e das anfetaminas.
CF: O metilfenidato é um estimulante usado para acalmar?
MAAM:
 Ele acalma pelo efeito zumbi, uma toxicidade. Uma coisa que não se pensa muito é o seguinte: o metilfenidato foca a atenção em quê? É aleatório. Ao conter as atividades cerebrais de tal modo que você não se distraia, esta única coisa em foco é eleita ao acaso. É o que passa pela frente. Não é uma substância que te faz focar no estudo. Não existe isso.
CF: O Brasil perde apenas para os EUA no consumo de metilfenidatos. O que aproxima as sociedades médicas desses países?
MAAM:
 A sociedade médica brasileira, há 50 anos, era voltada para a França. Hoje é voltada para os EUA. É quase mundial isso, mas na Europa ainda há uma resistência. Somos muito dependentes da tecnologia e da cultura americana, que impõe essa padronização e normalização das pessoas. A gente constrói uma sociedade que quer uma criança cada vez mais ativa e ligada no mundo. Crianças com 4 anos mexem no computador com várias janelas abertas ao mesmo tempo. Quando elas chegam na escola, queremos que elas façam uma coisa só e não questionem. Queremos crianças criativas, ótimas e submissas! Elas questionam, querem saber o porquê. O “não” não basta mais. E os adultos não aguentam isso. A sociedade é muito incomodada com os questionamentos e a gente acaba abafando isso via substância química. Junte isso ao interesse financeiro das indústrias farmacêuticas. Elas financiam cursos, viagens para médicos, vantagens em clínicas. Curso para professores financiado por um laboratório é algo estranho. Não sejamos ingênuos: eles estão, na verdade, treinando professores para identificar futuros clientes consumidores de suas drogas. E esse é um peso muito forte, que consta, inclusive, em relatório do departamento de justiça dos EUA, mostrando como a Ciba-Geigy (Laboratório que viria, a partir de 1996, a formar a Novartis) – financiava entidades de familiares e profissionais ligados à defesa das pessoas com TDAH.
CF: Quais os efeitos desses psicotrópicos quando tomados por longo período?
MAAM: Isso consta em qualquer livro de farmacologia. Vários trabalhos mostram que existe um risco de dependência química muito grande, além de uma dependência psíquica, porque a pessoa se sente mais ativa mesmo. E tem várias pesquisas mostrando que, quando a criança começa a tomar aos 4 anos e retiram o remédio aos 18, existe uma tendência muito grande de drogadição por substância mais pesadas. Se a criança está usando um estimulante desde os 5, 6 anos, ela vai buscar outra droga quando interrompe este uso. No mundo todo, clínicas relatam que metade dos adolescentes conta que começaram a drogadição e a mantém com ritalina. E a fala desses adolescentes é que eles começaram a usar porque é barato, acessível, fácil de comprar, embora tenha receita controlada. Segundo eles, os médicos diziam que era seguro. Como dizem até hoje. Mas não é uma droga segura.
CF: A discordância não é só quanto ao uso ou não da medicação, mas quanto à existência do próprio transtorno.
MAAM: 
A discordância básica é que não existe uma comprovação aceita de que haja uma doença neurológica que só altere comportamento e aprendizagem. Isso ainda não foi provado. A lógica da medicina é comprovar a doença e depois tratar. Para essa, o remédio foi encontrado antes.
CF: A comprovação seria se encaixar nos critérios do questionário Snap-IV.
MAAM: Aqueles critérios são altamente questionáveis. Aquilo não é critério de doença, é norma social. Como posso transformar uma norma social em biológica? O Snap-IV contém 18 perguntas, e as primeiras nove falam de atenção, e as outras, de hiperatividade. Se você preencher seis das perguntas, tem o diagnóstico de déficit de atenção, hiperatividade ou dos dois. Todas as questões falam de comportamento. Só com base nisso afirmam a presença de uma doença neurológica?
CF: A partir de que idade uma criança pode ser diagnosticada?
MAAM: 
Há relatos na medicina americana de crianças de 2 anos que teriam dislexia quando entrassem na escola. Como identificar que alguém vai ter dificuldades de ler e escrever aos 2 anos?
CF: Quem defende o uso da medicação argumenta que apenas seu uso incorreto não é seguro e que a criança que não é diagnosticada sofre.
MAAM: 
Sofre por causa da sociedade. Eu quero trabalhar o conflito que ela está vivendo e libertá-la desse conflito e de uma doença que ela não tem. É preciso entender isso até para poder superar e enfrentar. Agora, quando digo você é doente vou te dar um remédio, os pais ficam aliviados porque, enfim, encontram o problema e podem tratar o filho. Esse é o sonho de todo pai. Mas eles estão iludidos porque essa criança, na verdade, não está sendo tratada. Ela está introjetando ser doente, ter algum problema e tudo o que ela conseguir na vida vai ser porque foi tratada. É totalmente desconsiderada em que situação isso é produzido. Porque os problemas de aprendizagem são todos produzidos.
CF: O rendimento na escola das crianças medicadas melhora.
MAAM: 
É preciso provar que foi a droga porque se inicia um trabalho pedagógico com a criança, afirma-se que ela está doente, que está sendo tratada, a professora vai ensinar de um modo diferente, ela vai acreditar que pode aprender. A revisão dos trabalhos publicados que preenchem todos os requisitos de pesquisa científica mostra que não há melhora consistente do desempenho acadêmico. Esta é, inclusive, a conclusão de uma reunião feita nos EUA para estabelecer consensos para o diagnóstico e tratamento.



Quem quiser conferir no site basta acessar: 


terça-feira, 28 de junho de 2011

Depois de um longo tempo...

Peço desculpas pelo longo tempo em que não postava aqui! Depois de alguns meses na correria do trabalho pretendo retornar a este espaço mais assiduamente!

A seguir vocês poderão ler dois textos interessantes: um deles chamei de "Davaneios sobre o filme Dogville" e o Outro sobre meu trabalho com a Psicologia Escolar.

Confiram!

Até mais

Devaneios...


Dogville - CartazRelato aqui uma aventura: há algum tempo, participando de uma "Semana de Arte e Cultura", promovida pelos Cursinhos Populares de Ribeirão Preto, tive a proposta do grupo para discutir o filme Dogville. Digo aventura, pois a tarefa seria realizar uma correlação entre o referido filme e a Análise Psicodramática, referencial teórico em que baseio meu trabalho clínico. Trata-se de um filme nada convencional e bastante denso, sendo que tais características  contribuiram para que considerasse essa tarefa uma aventura...
Mas, como não tenho tanto medo de aventuras, resolvi partilhar a minha com vocês. A seguir apresento uma breve sinopse do filme e em seguida minhas reflexões. Entretanto recomendo que assista! Depois poderemos debater...

Sinopse
Anos 30, Dogville, um lugarejo nas Montanhas Rochosas. Grace (Nicole Kidman), uma bela desconhecida, aparece no lugar ao tentar fugir de gângsters. Com o apoio de Tom Edison (Paul Bettany), o auto-designado porta-voz da pequena comunidade, Grace é escondida pela pequena cidade e, em troca, trabalhará para eles. Fica acertado que após duas semanas ocorrerá uma votação para decidir se ela fica. Após este "período de testes" Grace é aprovada por unanimidade, mas quando a procura por ela se intensifica os moradores exigem algo mais em troca do risco de escondê-la. É quando ela descobre de modo duro que nesta cidade a bondade é algo bem relativo, pois Dogville começa a mostrar seus dentes. No entanto Grace carrega um segredo, que pode ser muito perigoso para a cidade.

Devaneios psicológicos sobre o filme Dogville.
         
          Como comentei anteriormente, vale muito e apena ver o filme para entender melhor estas palavras, que foram a base de uma discussão coletiva na "II Semana de Arte e Cultura" realizada pelos cursinhos populares de Ribeirão Preto. 
          Didaticamente escolhi algumas falas significativas durante o percurso do filme para nortear as reflexões que apresento a partir de agora.

         “Abria caminhos na alma humana, bem no ponto que ela criava bolhas”. Essa era a tarefa de Tom Edson. O que seriam bolhas na alma humana? Vazios, zonas de desorganização psíquica, pontos muitas vezes inacessíveis ao comando de nosso consciente. Essas “bolhas” são formadas por nossas vivências primitivas (aquelas que se estabelecem nas primeiras relações do bebê com mãe, pai e outras figuras de afeto e são registradas em nível de sensação, num momento de estruturação do psiquismo) e recentes (que são excluídas por se chocarem com o conceito de identidade, ou seja, a idéia que fazemos de nós mesmos). Elas aprisionam sensações e percepções negativas ligadas às vivências. Abrir caminhos na alma humana é desfazer tais “bolhas”, é integrar as experiências que estão fora do controle de nossa vontade e para as quais temos poucas explicações conscientes à nossa Identidade Psicológica.

Nosso Conceito de Identidade é formado por modelos e conceitos que são adquiridos e assimilados e configuram o que chamamos de “mundo interno”, o qual é constituído apenas por material consciente. Para a psicologia, o conceito de identidade é uma construção individual que permite o desenvolvimento de uma imagem aceitável acerca de si mesmo, dos outros e da realidade. É o mecanismo que o ego encontra para não se chocar com o “mundo cão”, do qual faz parte e é co-responsável. É a construção do que o psicodramatista Victor Dias chama de “chão psicológico”. Já a Identidade Psicológica, como dito anteriormente, é formada por material excluído (vivencias primitivas em nível de sensação e vivências que vão contra o conceito de identidade e que se tornam inconscientes) e material consciente.
Nosso psiquismo exclui do consciente vivências e percepções que se chocam com a imagem que temos sobre nós mesmos, ou seja, nosso Conceito de Identidade. Entretanto, esta exclusão acarreta uma sensação de falta, como se existisse – e existe – uma parcela de nosso psiquismo que não conhecemos.  É essa sensação que provoca nas pessoas a busca por explicações sobre si mesmo e predispõe a criação de rótulos que justificam atitudes e pensamentos, e que dão uma falsa sensação de identidade.
No filme, podemos identificar claramente alguns desses rótulos em todos os personagens, mas principalmente em Tom e Grace. O primeiro se diz um estudioso das questões morais e alguém capaz de seguir como poucos seus ideais, mas que se corrompe ao mínimo sinal de que sua imagem poderia ser prejudicada perante o pai. Grace é o sinônimo da aceitação e resignação, e considerava sua missão ensinar isso à Dogville. Ela deveria fazer “coisas que as pessoas da cidade não precisavam, mas que acabaram aceitando ser feitas” e se submeteu a situações desnecessárias, mas as aceitou “piedosamente”. Entretanto, apesar de sua atitude abnegada e piedosa, algumas vezes se permitiu entrar na provocação dos outros, como no momento em que o filho de Vera lhe pede uma surra (e ela dá, relutante no início), testando seus limites e chocando suas percepções sobre seu “conceito de identidade”, ainda que momentaneamente.
Com o decorrer da história, Grace intensifica seus trabalhos, mas isso não deixa ninguém mais feliz. Para conquistar a aceitação das pessoas, seus sacrifícios só aumentam, e ao se dispor a fazer o que as pessoas exigem, Grace fica cada vez mais fragilizada e mais suscetível aos “carrascos” da cidade. Isso nos faz pensar em outros tipos de relações em que observamos pessoas que se fragilizam por conta de outras, submetendo-se às mais absurdas situações de exploração e violência, para não chocar o frágil conceito que têm sobre si mesmas e sobre os que os cercam.
Quanto aos outros moradores, no início do filme, recebem a caracterização de “gente boa e honesta”, pessoas que tem esperanças e sonhos mesmo sob as mais duras condições. Porém, como a melhor maneira de conhecer as pessoas é conviver com elas, à medida que o filme avança podemos fazer uma real avaliação dos moradores de Dogville: mostram-se fracos, corruptíveis, vaidosos e carrascos. Uma fala muito simbólica do cego pode ilustrar o que quero digo: “Como uma pessoa que ama a luz, deixa a cortina fechada?”. As pessoas, ainda que adorem ser vistas e admiradas, têm medo de se mostrar, de evidenciar seus defeitos, suas mazelas, e por isso fecham as janelas para dificultar a passagem da luz. Porém, nem sempre podem manter a janela fechada e impedir que suas fraquezas venham à tona. Os seres humanos criam mecanismos para se defender do julgamento dos outros, mas, sobretudo, para se defenderem do julgamento de si mesmas.
Retomando os conceitos apresentados por no início, podemos observar que a trajetória dos personagens do filme reflete a trajetória de todos os seres humanos quando falamos em Identidade Psicológica e Conceito de Identidade. As situações vividas podem suscitar nos indivíduos questionamentos, confrontamentos relacionados àquilo que temos segurança em relação a nós mesmos, nossos valores, crenças e comportamentos. Neste momento, o psiquismo pode colocar em prática o que chamamos de “defesas conscientes” e justificar o porquê de termos determinado pensamento ou sentimento ou de nos comportarmos dessa ou daquela maneira. Contudo, estas mesmas situações podem mobilizar angústia e desencadear o que chamamos de Processo de Busca. Essa angústia é gerada por uma sensação de incompletude, de insegurança com relação aquilo que se tem e que não corresponde à toda a realidade, fazendo-nos buscar a nossa verdade, o que realmente somos.
No filme, podemos identificar uma situação em que Tom se dá conta de uma contradição interna, algo que se choca com o conceito que tinha sobre si mesmo até então. Isso acontece quando Grace o questiona sobre ter se deixado corromper pelos outros, ter sido tentado a fazer o mesmo jogo de exploração. Eis aqui uma fala ilustrativa desse momento: “Talvez tenha sido tentado a se unir aos outros e me explorar. Você tem medo de ser tão humano? Não é um crime dizer não a si próprio, mas é maravilhoso que não o faça”. Nesse momento, Tom se irrita com Grace, inicialmente por ter sido capaz de questionar sua integridade, mas depois se dá conta de que sua irritação não se deve ao questionamento em si, mas ao fato de que fora descoberto em sua fraqueza. A partir daquele, momento Grace se tornou uma ameaça a ele.
Tom faz, então, uma constatação acerca de sua Identidade Psicológica, aquilo que realmente corresponde à realidade. No filme, ele admite que se descobrir arrogante e fraco naquilo que considerava sua maior virtude – a moral- não fora fácil. Na vida real, esta constatação também não é fácil. Integrar conteúdos excluídos de nosso consciente pode ser um processo longo e doloroso, que algumas vezes acontece através das circunstâncias de vida, mas, na grande maioria das vezes, acontece durante a psicoterapia. A facilidade ou dificuldade em integrar esse material excluído ao Conceito de Identidade, ou seja, tornar consciente uma verdade que antes era inconsciente, depende do que chamamos de auto-continência, ou seja, a capacidade que os seres humanos têm de suportar a própria angústia. Essa habilidade de se auto-aceitar, de flexibilizar conceitos pré-existentes, é um sinal de saúde mental!
Para Grace, esta constatação aconteceu por meio dos questionamentos de seu pai. Até então ela se protegia atrás de uma postura misericordiosa e complacente. Como ela poderia julgar aquelas pessoas, vivendo naquelas condições? Ele a acusa de arrogante, pois perdoa aqueles que a exploram. Ela não os julga, pois tem medo de ser julgada da mesma maneira, se solidariza, se identifica com seu comportamento de cães, que “lambem o próprio vômito”. Em determinado momento do filme, o narrador destaca o que seria uma habilidade de Grace: “afastar as coisas desagradáveis para longe, o raro talento de olhar para frente e bem para frente”. Mas o que é “afastar as coisas desagradáveis para longe”? O que significa, neste caso, “olhar para frente e bem para frente”? Significa nunca voltar para dentro de si mesma, evitar a angústia e nunca questionar posturas e convicções.
Ao final do filme, Grace se dá conta de toda a opressão que lhe foi imposta. Opressão a qual se submeteu sob a alegação de que tinha a missão de ensinar-lhes aceitação. Era como se “de repente a luz pudesse penetrar em todas as irregularidades das casas e das pessoas”. Contudo, a “vítima” que passara pelas mais diversas situações de opressão, reverteu a situação mudando de lado e tornando-se opressor, ainda que sob a alegação nobre de “quero fazer este mundo um pouco melhor”.
“Uma cidade não muito distante daqui”. Dogville retrata a realidade da alma humana, em sua crueldade, sua desumanidade. Realidade que independe de fronteiras ou cultura, mas que é da natureza da espécie e se repete em cada ser. Faz-nos pensar na convivência simultânea de dois personagens, vítima e carrasco dentro de nós. Tom e Grace refletem muito bem esta dicotomia. Ao abdicar de cenários, podemos observar profundamente cada personagem através de uma “transparência” que nos permite enxergar a alma humana sem qualquer defesa ou rótulo que possa justificar sua fraqueza. 

O CIPE e a Psicologia Escolar

  
          A Psicologia Escolar e Educacional tem se constituído como um importante campo de atuação do psicólogo, muito embora, o trabalho deste profissional nas escolas seja bastante confundido com o modelo clínico/psicoterapêutico.  Na realidade, os serviços de Psicologia dentro das instituições educativas devem romper com a tendência à patologização ou medicalização, que padroniza e estabelece diagnósticos classificatórios e excludentes, superando queixas individuais e atuando numa perspectiva institucional.
O Conselho Regional de Psicologia em Nota Técnica sobre a atuação do Psicólogo Escolar (disponível em www.crpsp.org.br) afirma que este profissional deve contemplar em sua prática ações que considerem a realidade escolar brasileira, a diversidade cultural e as dimensões psicossociais das comunidades educacionais. Além disso, é fundamental que se insiram em projetos coletivos multidisciplinares contribuindo para a elaboração, implementação e avaliação do projeto político pedagógico da escola e ampliando espaços de reflexão acerca das estratégias de ensino aprendizagem que considerem os desafios da sociedade contemporânea.
           Diante do exposto e das inúmeras demandas das comunidades escolares, o CIPE tem como proposta oferecer um serviço de qualidade que prima pelo compromisso ético de promover a liberdade, a dignidade, a igualdade e a integridade dos usuários de seus serviços, trabalhando em prol da saúde e qualidade de vida de indivíduos e coletividades. Ademais, garantimos atuar com responsabilidade por meio do contínuo aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico de conhecimento e de prática.
Temos como referencial teórico o Psicodrama, criado por Jacob Levi Moreno (1889-1974),  e baseado na idéia de que o ser humano deve ser concebido e estudado através de suas relações interpessoais, ou seja, dos grupos nos quais ele está inserido. Sendo assim o homem é considerado um ser social que possui recursos inatos: a espontaneidade, a criatividade e a sensibilidade. Entretanto, as condições do ambiente ou do seu sistema de relações podem impedi-lo de utilizar de forma plena seus recursos, ou seja, tem a espontaneidade, a sensibilidade e a criatividade bloqueadas. A recuperação desses recursos vitais se dá na medida que os indivíduos ressignificam relações afetivas e mudam definitivamente sua ação sobre o meio.
O Psicodrama considera o ser humano como um agente participante de sua própria transformação, sendo que ela acontece na medida em que o indivíduo cria uma reposta nova -criativa e espontânea- rompendo com padrões de comportamento automatizados. A dramatização é o método pelo qual o indivíduo pode entrar em contato com seus conflitos e conquistar o autoconhecimento.
Dentro do foco sócio-educacional, o Psicodrama tem sido utilizado, no Ensino Fundamental, para identificar razões e graus de agressividade presentes nos grupos, além de revelar a capacidade de se lidar com realidade e fantasia. Os professores de educação infantil têm sido trabalhados através do teatro e técnicas psicodramáticas objetivando a ampliação e enriquecimento das possibilidades metodológicas do ensino, da expressão e comunicação, desenvolvimento da criatividade e humanização da relação professor/aluno.
Na escola, em encontros bimestrais de pais, a metodologia psicodramática tem ajudado a intensificar a relação escola/família e, em reuniões pedagógicas mensais com os professores, tem aperfeiçoado a atuação e qualificação de profissionais através do treino de papéis. O Psicodrama na sala de aula também tem trabalhado as relações entre adolescentes e seus grupos, evidenciando relações de exclusão e rejeição, identificando diferentes papéis existentes no grupo, propondo a transformação da sala de aula num espaço de relação afetiva entre aluno, professor e colegas, ressignificando vínculos.


 Para tanto, oferecemos assessoria em psicologia escolar com o objetivo de:

1)    Contribuir teórica e praticamente, junto aos professores e demais agentes educativos na construção do processo de ensino-aprendizagem e auxiliá-los a atender demandas diárias dos Educandos, salientado as características psicológicas pertinentes ao momento maturacional de cada faixa etária e preparando-os para oferecer continência às crianças e jovens no que tange suas demandas efetivas.
2)    Desenvolver, junto com a equipe e outros setores do colégio, trabalhos direcionados aos pais, cujo intuito é o de perceber e ampliar a participação e o envolvimento da família na formação do Educando.
3)    Orientar e realizar aconselhamento psicológico do Educando e/ou seus responsáveis;
4)    Assessorar a equipe escolar na realização de Projetos Interdisciplinares abordando temáticas como: Habilidades Sociais; Habilidades Sociais Educativas; Ética, Meio Ambiente, Afetividade e Sexualidade, Pluralidade Cultural, Trabalho e Consumo e Saúde, Afetividade e Sexualidade, Cidadania, Projeto de Vida, Orientação Vocacional, Cultura de Paz.
É com imensa satisfação que partilhamos com as instituições sérias de Ribeirão Preto o projeto de trabalho do Centro Integrado de Psicologia e Educação, que visa atender aos diferentes atores do processo educativo: educandos, famílias e escolas.